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NAGÔ
qui= nta-feira, 23 de dezembro de 2010
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Em 1= 875, Inês Joaquina da Costa (Ifá Tuniké), mais conhecida como Tia Inês, dese= mbarcava em Pernambuco vinda da cidade de Egbá, na Nigéria. Em sua mínima bagagem= como por intuição do que estaria por vir, trouxe sementes e materiais usados no culto a Yemonjá, orixá cultuado na sua região, e mais algumas divindades cultuadas no panteão yorubá.
Com = o passar do tempo, ela se estabeleceu em Recife, no bairro de Água Fria, plantou as sementes das árvores sagradas, a exemplo da gameleira e do Baobá. E assim= foi nascendo o Sítio de Tia Inês e uma forma de culto chamada Nagô Egbá, ta= mbém conhecida como “Xangô do Recife”, tendo sua casa matriz o próprio Sí= tio de Tia Inês, que mais tarde seria conhecido, registrado e tombado como Terreiro O= bá Ogunté, estendendo-se então como culto mais conhecido em Recife e sua reg= ião metropolitana e como reflexo presente na cultura pernambucana.
Apó= s a morte da matriarca da nação Nagô Egbá, o Sítio de Tia Inês continuou aos cu= idados de seus filhos adotivos e assim a regência passou a ser de pai para filho, causando assim mais uma característica da nação: o patriarcado, como sen= do a maneira mais comum de herança. O mais conhecido entre os regentes foi Feli= pe Sabino da Costa (Ope Watanan), conhecido como Pai Adão, sua figura se most= rou tão popular dentro do culto que a casa passou a ser popularmente conhecida= até hoje como Sítio do Pai Adão.
Boa = parte dos barracões, atualmente, é regida por zeladores, porém vale salientar = que as casas mais tradicionais e mais respeitadas foram fundadas por mulheres.
Os p= apéis do homem e da mulher são bem fixos no culto, os homens ganharam mais espaço e sempre por trás dos zeladores estão elas, as “senhorinhas” zeladoras = os acompanhando. Observando conversas entre zeladores percebo certo machismo e muitas zeladoras repelem esses conceitos, arregaçam as mangas e constroem = seus barracões, sendo eles regidos por elas e sendo elas auxiliadas pelos seus = ogãs e ebamis, mostrando que o futuro poderá refletir novamente o passado.
O Na= gô Egbá se assemelha muito ao Ketu. É uma nação onde suas casas tradicionais man= têm as mesmas formas de culto e conceitos ensinados pelos seus antepassados, daí = vem o por quê da quantidade de orixás cultuados, que citarei mais adiante, ser relativamente menor que a de outros cultos.
Como uma nação de origem yoru= bá, o Nagô Egbá comporta orixás, teorias e histórias mitológicas iguais ou muito p= róximas da nação Ketu. Além das pequenas diferenças em sua ritualística intern= a, a diferença mais clara está presente nas festas, nas formas como os orixás= se manifestam e dançam durante os xirês. Os instrumentos principais mudam; no lugar do som mais agudo dos atabaques, está o som mais grave e compassado = dos ilús. A sequência de orixás cantada durante a roda do xirê é a mesma e= m todas as casas e a das toadas geralmente também (provável herança da nossa casa matriz).
Os o= rixás homenageados em ritual aberto ao público, o toque, são em menor número d= o que na nação Ketu, como já foi mencionado. São basicamente treze orixás ca= ntados na seguinte sequência: Exu, Ogum, Odé, Obaluayê, Oxumaré, Nanã, Ewá, Ob= , Oxum, Yemonjá, Xangô, Oyá e Oxalá. Ossaim tem seu culto e é sempre lembrado e homenageado durante os rituais internos e orôs; Iroko segue lembrado e cul= tuado nos terreiros na forma da imensa gameleira. Sobre o orixá Logum Edé, não= há registro no culto Nagô Egbá, nós não negamos sua existência, apenas n= o há registro histórico sobre o orixá dentro do culto. Porém, há uma peculia= ridade em relação a alguns outros cultos: o culto à Orunmilá é muito conhecid= o e difundido na nação com suas inúmeras cantigas cantadas durante as saída= s dos balaios para Oxum e as panelas de Yemonjá, além de ser também lembrado na cerimônia de Bori.
Houv= e um tempo, mais precisamente entre 1938 e 1948, em que os terreiros de Candombl= é foram perseguidos, fechados e alguns até destruídos. Esse episódio ocorr= eu em diversas partes do país e não aconteceu diferente em Pernambuco. Muitos zeladores fecharam suas portas, abandonaram a religião, enquanto os que persistiram na sua fé faziam tudo á maneira mais escondida e disfarçada possível.
“Era 31 de dezembro de 1948 e a comunidade de Água Fria, na Zona = Norte de Recife, se aprontava para um ritual que há muito não se via, nem ouvia= , a não ser em lugares secretos. Naquela noite poderiam outra vez cultuar seus deuses com o consentimento das autoridades.
É claro que começou somente com o povo do terreiro do Sítio de P= ai Adão. Os filhos e filhas de santo tocavam e dançavam ainda desconfiados; o batuq= ue era discreto. Olhavam pelas janelas para ver se a polícia não apareceria = para impedi-los, mais uma vez. As baianas usavam a saia branca do candomblé por= cima de vestidos. Ficaria mais fácil de tirá-las caso os perseguidores chegass= em de surpresa. Os que não acreditavam no que ouviam, aos poucos, iam se aproxim= ando do salão do terreiro, onde acontecia um toque para Oxalá.
De r= epente, um grito ecoa no salão. Era o orixá Ogum, manifestado em França, filha d= e santo antiga da casa. Os ogãs perderam a timidez; soltaram os braços e o toque = se animou; os fiéis passaram a cantar mais alto, os cânticos a Oxalá. E os = orixás da casa passaram a “descer”. Mãe Joana Batista recebeu sua Iemanjá, e= os demais médiuns passaram a entrar em transe e receber seus orixás. Com o passar d= os dias, outros terreiros do Recife voltaram a praticar seus rituais de candom= blé, livres da perseguição que durou dez anos. O fim do período marcado pelas constantes prisões de babalorixás e filhos de santo, e quebra-quebra da p= olícia quando encontrava imagens e símbolos africanos nas casas denunciadas, comp= leta hoje sessenta anos.”
Esse episódio significou algumas perdas ao culto, perdas principalmente nos fundamentos de orixás recentemente inseridos ao culto durante aquela époc= a, como Obaluayê, Nanã, Oxumaré, Ewá e Obá e que aos poucos iam sendo con= hecidos pelos adeptos. E apenas os orixás mais conhecidos voltaram a ser cultuados= , a exemplos: yemonjá, Oxum, Exu, Ogum, Xangô, Oyá e Odé. Com a inserção = do ketu e do jeje-nagô em Pernambuco, a troca de informações fez e está fazendo, = aos poucos, estes orixás que tiveram seus fundamentos perdidos voltarem a ser = não apenas homenageados no xirê, mas também cultuados dentro da nação.
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